sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

FOTOPOEMA

FELIZ 2010!

TODAS AS MANHÃS


Despertar é vitória infinda,
a qual o orgulho humano não brinda,
por julgar rotineiro e certo o descerrar das pálpebras.
Por conceber ato consumado a sorte da hora:
a verve rara de Deus rimando vida e aurora.


Carmen Moreno

domingo, 13 de dezembro de 2009

TEXTOS INTERPRETADOS POR CARMEN MORENO

VÍDEO: CARMEN MORENO EM PROSA E VERSO

A AUTORA, SOB A DIREÇÃO DE MÔNICA SERPA, INTERPRETA TRECHOS DE SEUS LIVROS:


Diário de Luas, romance (Rocco); Sutilezas do Grito, contos (Rocco); O Primeiro Crime, romance policial (Rocco) e O Estranho, contos (Five Star). Poema final: Ainda, Revista Poesia Sempre, Biblioteca Nacional.



PARA ASSISTIR, CLIQUE ABAIXO:


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

PROSA E POESIA - TEXTOS PUBLICADOS E INÉDITOS:

FOTOPOEMA


TAÇA DE VINHO AO MEIO
A VIDA INTEIRA...



Texto premiado, inserido na coletânea Devemos ver com os olhos livres, Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida.


*Devemos ver com os olhos livres

Como proteger nosso olhar do sol implacável de tudo? O sol permanente que, a cada segundo, nos compõe e desmancha em moldes de gente? Onde os óculos, as lentes? Onde o filtro lúcido que nos proteja dessa luz bombástica de orientações ininterruptas? Desorientações? Essa luz multifacetada que nos faz ser o que somos... O que não somos? O que querem de nós?

Quem seríamos se não houvesse tantas vozes norteando nossos passos? Tantas TVs e jornais... vizinhos e dogmas? Ouvimos pai e mãe e acolhemos, sem triagem, todas as gerações que nos trazem em sua bagagem de crenças. Tudo o que nos dizem com o movimento ou a aridez de seus corpos. Seus corpos e suas mensagens subliminares. Às vezes, paradoxais. Acolhemos, mesmo que inconscientes, sua fala, seus valores e verdades. Quando, enfim, a filtragem?

O que não é meu na certeza inabalável de meu mestre? O que não é meu na frase-feita que, sem pensar, repito? No preconceito que, mesmo incrédulo, multiplico? O que é meu na tradição de minha avó e seus chinelos bordados? O que nunca foi meu nos medos de meu pai? Como herdar o sorriso de minha mãe e sua vontade de alegria? O que, afinal, quero que me pertença e o que é dejeto e melancolia?

Que jóias de família merecem adornar meus sonhos? Que ideais se harmonizam com este tango tocando em meu peito? Tantas quinquilharias nesses baús herdados! Quantas correntes ainda carrego nestes meus pés alforriados!

No entanto, sei que podemos escolher com olhos acordados, desacorrentados... olhos alados de anjo. Podemos nos apropriar do nosso olhar. Resgatar o nosso rosto soterrado. Podemos rejeitar o discurso rançoso, o mau humor das redondezas, a mentira da notícia, o império da pobreza. A imposição da tristeza. A violência cotidiana das entrelinhas... essa que cresce e vira soco. Essa que cresce e vira faca urbana, bomba e míssil. Essa que, sorrateira, nos chega, diluída como pó, invisível. Inofensiva. A violência sutil da resposta seca, da não-resposta, do não, do grito, da pressa, do estresse, da fala fria, da falta de tempo, de abraço e de harmonia.

Escolher é dar à luz o desejo despido. Lavado. O sumo de tudo o que, no balancete do dia, mais se aproxima da nossa alegria. No entanto, para escolher, precisamos libertar o olhar viscoso. Desintoxicar a alma de tantos ditos, e ver a paisagem com olhos de cego. Com olhos de tato e cheiro. Ver a paisagem como quem salta do ventre, desinformado, solitário e são.

Carmen Moreno

*Frase de Oswald de Andrade


ORAÇÃO PELOS AMANTES


Que seja o amor mais que a intimidade
dos corpos, na dança úmida do gozo.
O gozo, que estonteia, mas (vapor),
se dissolve no desenlace de coxas e braços,
no desapegar de mãos e bocas.
O gozo que, sozinho, não firma o chão do encontro.
Mas, quando transpõe a órbita efêmera dos corpos,
funde as almas!
Que seja o amor o lugar da comunhão de dois mundos. 
E que haja nesse encontro um assento cativo para
o desencontro de idéias e gestos...
as diferenças de norte de cada olhar.
Que o outro seja sempre o outro,
na sua plenitude estranha e adorável de Ser único.
Mas que, no folhear dos dias e seus mistérios,
o outro se desmanche no outro,
na liga sólida da paciência e da boa-vontade,
para a superação da inevitável aridez das horas.
Que seja o amor o alimento do humor, a costura de risos.
Que a alegria prevaleça, no desafio cotidiano dos imprevistos.
E que a previsão seja: encontrar sempre
no olhar dos amantes o brilho de esperança de antes.

Carmen Moreno




quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

ROMANCE INÉDITO - CASA INSANA (Sinopse e Trechos Selecionados):



Carmen Moreno
Foto: Marcio RM


SINOPSE

Casa Insana aborda a neurose familiar, e o desdobramento de nossas relações primárias em tantas outras, projetadas ao longo da vida.

O livro, de atmosfera poética e filosófica, introduz o leitor em um universo de suspense, levando-o a refletir sobre vida e morte, verdade e mentira. Provoca-o a enxergar o ódio, flagrante ou escamoteado, em tantas manifestações do amor.

Em Casa Insana, a ambigüidade dos sentimentos encontra no crime sua expressão máxima, embora o crime não seja o foco da trama, e sim o que há de mais sutil na compreensão dos relacionamentos humanos. O leitor tem a oportunidade de estabelecer contato estreito com o mundo interior dos personagens, e a evolução dos motivos que geram os homicídios em um apartamento de Copacabana.

A trama, estruturada de forma dinâmica, com alternância de narradores, possibilita leituras diferentes. Cada personagem imprime sua voz e olhar a respeito dos outros personagens e fatos, favorecendo a identificação dos motivos de cada um, sem que um vilão seja eleito, ou uma visão maniqueísta, sugerida.


TRECHOS SELECIONADOS:

(...) Arrastou pelo resto do dia aquela sensação viva de morte. Relembrou cada detalhe do sonho, impregnado daquela atmosfera funesta.(...) Se soubéssemos detalhes de nossa partida, mesmo o mais ansiado desejo nos pareceria inútil. E os dias, uma angustiante subtração de minutos e fatos. Que graça teria amar, se no rosto do amante lêssemos, a cada manhã, a data de deixá-lo? Que graça teria o amor, se, mesmo antes de quebrar-se no curso natural do desgosto, seu fim fosse o minucioso espelho do nosso? (...)

(...) Na cama do hospital brincava de distrair a angústia, que agora não podia mais ser aplacada pelo álcool. O Universo lhe impusera uma parada. Provisória? Sentia apenas que uma força maior e contrária aos seus planos ditava agora um novo ritmo para o dia. Lento. No trajeto vagaroso da cura, Leda era um inseto tentando atravessar uma estrada. A vida lhe avisou? A vida lança sinais dúbios aos nossos sentidos desacordados. De súbito, alguém toma posse de nossa agenda, desejos e corpo. Não há a quem perguntar, negociar, reclamar... quanto tempo? Quem é o tempo? Alguém maior do que nós mexe nos ponteiros, vira o volante e a tela do dia mostra outras passagens, enredos, personagens. Só nos resta faxinar os sentidos, ouvir a voz do desconhecido e seus dizeres cifrados, frequentar suas aulas de existência. Paciência, paciência...

Ela ainda não possuía. Mas aprendia. Que a paciência se aprende, como se aprende a pressa, ver a vida da janela de um trem-bala, as paisagens se fundindo, um quadro impressionista, um corredor sem fôlego na pista. (...)”.

“(...) Mas Leda desconhecia a dor da vizinhança. E, talvez, saber não atenuasse mesmo em nada a sua própria. Para nós, seres inflados de ego, a dor maior é sempre a própria. Nenhuma compaixão se experimenta em estado de dor. Por mais que nossa intenção seja acolher, quando sofremos, o outro é só o outro - uma suspeita vaga de infortúnio... um gesto incompleto de amor. Só a uns raros da espécie fora ofertado o dom de saltar do próprio lodo para ajudar alguém mais chafurdado.(...)”.

“(...) As fotos da família, para Rosália, eram assim: uma espécie de carícia suave, que não toma o espírito de alegria, nem tem a concretude de um abraço, de um corpo colado noutro corpo, mas serve como um aceno, um beijo jogado de longe, do qual, ao se adivinhar o gosto, alivia-se um pouco o peso da alma. (...)”.

Carmen Moreno