quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

ROMANCE INÉDITO - CASA INSANA (Sinopse e Trechos Selecionados):



Carmen Moreno
Foto: Marcio RM


SINOPSE

Casa Insana aborda a neurose familiar, e o desdobramento de nossas relações primárias em tantas outras, projetadas ao longo da vida.

O livro, de atmosfera poética e filosófica, introduz o leitor em um universo de suspense, levando-o a refletir sobre vida e morte, verdade e mentira. Provoca-o a enxergar o ódio, flagrante ou escamoteado, em tantas manifestações do amor.

Em Casa Insana, a ambigüidade dos sentimentos encontra no crime sua expressão máxima, embora o crime não seja o foco da trama, e sim o que há de mais sutil na compreensão dos relacionamentos humanos. O leitor tem a oportunidade de estabelecer contato estreito com o mundo interior dos personagens, e a evolução dos motivos que geram os homicídios em um apartamento de Copacabana.

A trama, estruturada de forma dinâmica, com alternância de narradores, possibilita leituras diferentes. Cada personagem imprime sua voz e olhar a respeito dos outros personagens e fatos, favorecendo a identificação dos motivos de cada um, sem que um vilão seja eleito, ou uma visão maniqueísta, sugerida.


TRECHOS SELECIONADOS:

(...) Arrastou pelo resto do dia aquela sensação viva de morte. Relembrou cada detalhe do sonho, impregnado daquela atmosfera funesta.(...) Se soubéssemos detalhes de nossa partida, mesmo o mais ansiado desejo nos pareceria inútil. E os dias, uma angustiante subtração de minutos e fatos. Que graça teria amar, se no rosto do amante lêssemos, a cada manhã, a data de deixá-lo? Que graça teria o amor, se, mesmo antes de quebrar-se no curso natural do desgosto, seu fim fosse o minucioso espelho do nosso? (...)

(...) Na cama do hospital brincava de distrair a angústia, que agora não podia mais ser aplacada pelo álcool. O Universo lhe impusera uma parada. Provisória? Sentia apenas que uma força maior e contrária aos seus planos ditava agora um novo ritmo para o dia. Lento. No trajeto vagaroso da cura, Leda era um inseto tentando atravessar uma estrada. A vida lhe avisou? A vida lança sinais dúbios aos nossos sentidos desacordados. De súbito, alguém toma posse de nossa agenda, desejos e corpo. Não há a quem perguntar, negociar, reclamar... quanto tempo? Quem é o tempo? Alguém maior do que nós mexe nos ponteiros, vira o volante e a tela do dia mostra outras passagens, enredos, personagens. Só nos resta faxinar os sentidos, ouvir a voz do desconhecido e seus dizeres cifrados, frequentar suas aulas de existência. Paciência, paciência...

Ela ainda não possuía. Mas aprendia. Que a paciência se aprende, como se aprende a pressa, ver a vida da janela de um trem-bala, as paisagens se fundindo, um quadro impressionista, um corredor sem fôlego na pista. (...)”.

“(...) Mas Leda desconhecia a dor da vizinhança. E, talvez, saber não atenuasse mesmo em nada a sua própria. Para nós, seres inflados de ego, a dor maior é sempre a própria. Nenhuma compaixão se experimenta em estado de dor. Por mais que nossa intenção seja acolher, quando sofremos, o outro é só o outro - uma suspeita vaga de infortúnio... um gesto incompleto de amor. Só a uns raros da espécie fora ofertado o dom de saltar do próprio lodo para ajudar alguém mais chafurdado.(...)”.

“(...) As fotos da família, para Rosália, eram assim: uma espécie de carícia suave, que não toma o espírito de alegria, nem tem a concretude de um abraço, de um corpo colado noutro corpo, mas serve como um aceno, um beijo jogado de longe, do qual, ao se adivinhar o gosto, alivia-se um pouco o peso da alma. (...)”.

Carmen Moreno


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