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quinta-feira, 26 de julho de 2012

ALGUNS POEMAS DE LOJA DE AMORES USADOS (Multifoco) DE CARMEN MORENO

PARA ADQUIRIR UM EXEMPLAR

CONTATO PARA VENDAS (EDITORA MULTIFOCO):

Tel.: (21) 22223034



LOJA DE AMORES USADOS

Prêmio Bolsa de Incentivo ao Escritor Brasileiro
             
(Biblioteca Nacional / Ministério da Cultura)                                                               


FOTOS: Carmen Moreno

A SUA PARTE

O mundo está em guerra.
Qual a sua palavra bélica?
Onde o seu amor emperra?
A guerra começa na sua terra.
Na casa do cotidiano.
No quintal do seu pensamento - insano.
Depois, vira fala e cresce em ato mesquinho.
E você atira, sem bala, no inimigo - seu vizinho.
O mundo está em guerra.
Qual o seu verbo que mata?
Qual o seu gesto que enterra?

DESTINO

O morto não mora onde o corpo se expõe no último traje.
Não cessa ali – sob o assédio dos olhos na caixa fria.
Jaz, na derradeira vitrine do rito, apenas a casca oca
(que seus sonhos e medos já não guarda).
Inútil pranteá-lo, em flores e confissões,
na masmorra de mármore.
Sob a lápide, apenas pele e destroços.
Sua dor volátil migrou para o invisível, rumo ao sol.
O morto não mora no ossário,
na urna de cinzas prometida ao mar,
nos tesouros que guardava,
no quarto que o aguardava.
Não cessa no tiro, no corte,
ou quando, amorosa, a morte o elege
no sossego da noite.
O MORTO NÃO MORRE.

Foto: Delayne Brasil

AINDA

Dizer urgente do amor ao amante.
Antes que se quebre o tempo.
E os ouvidos, dissolvidos na terra,
não apreciem mais a carícia das sílabas.
Antes que as mãos, tímidas de dar,
cessem de vez os movimentos.
E todos os gestos virem ossos.
Dizer urgente ao amigo o valor do vínculo.
Que só o amigo costura.
Só o amigo, cozeduras, cozimentos, cerziduras,
que só o amigo estanca os sangramentos.
Dizer urgente do amor, sem resistências.
Antes que a língua, de súbito, se cale,
e o amor, preso por reticências, maledicências,
medos, mágoas, role pelos ralos.
Antes que o amor, quedado pela foice,
faça da palavra não dita, eterno açoite.

Escola Municipal Minas Gerais - Urca

CAMA DE GATO

Os amantes se penetram.
Injetam-se um no outro, e perdem o rosto.
Drogados, adormecem do mundo,
numa jura tácita de "Somos um".
Os amantes se prometem.
Obrigam-se, abrigados um no outro.
Fechadas as portas, criam língua própria,
estrangeiros do mundo.
Os amantes se viciam,
escorados um no outro.
Engate sedutor,
protegidos do mundo.
Mas os amantes se desamam,
arrancam-se um do outro.
E sós, esbugalham os olhos, medrosos,
desacostumados do mundo.



DÁDIVA

Minha mãe é o tempo.
Templos, tendas, todas as casas, asas sobre nós.
Relíquias de alegrias, repartidas no gesto e na voz.
Moram mundos em seu coração de bronze,
que se estilhaça e se refaz, em incansáveis curas.
Orixás restauram o chão sob seus pés,
a cada desventura.



INDAGAÇÕES SOBRE O COMEÇO DO FIM 

De que recanto do amor o pássaro da morte
levou no bico o teu beijo?
De que célula adoecida alastrou-se, sorrateiro, o desencanto,
– o cancro?
Quando teu olhar nublou os raios que acendiam nosso quarto,
e a ascensão do fogo rendeu-se à gravidade,
qual balão apagado em queda lenta?
Em que subterrâneos do fim, o cinismo tecia
seu golpe absoluto?
Que atávicos ruídos neguei ouvir, curvando-me à cegueira?
Em que átimo de tempo o rumor do silêncio apartou nossos corpos?
Quando o chicote da língua roubou das palavras o afago?
Em que instante invisível, a semente apodrecida alojou-se
sob os tacos da casa, rompendo a liga dos tijolos,
a proteção das telhas, o ânimo dos abraços?
Quando, em tuas veias, o gotejar do tédio virou sangramento interno,
e a verdade internou-se na ala dos doentes terminais?
Quando, a mentira, adornada de afeto,
deformou o primeiro traço do teu rosto?
Com que barro o artista barroco erigiu, na praça do meu peito,
tua máscara verossímil (tão bem talhada),
tombada, de súbito, no chão do deserto?
Quando (analfabeto de mim) não pude ler nos teus gestos
a sílaba traiçoeira?
Quando o bafo do abandono mudou o hálito das bocas,
e a mudez (ora implacável)
lançou nas salivas o gérmen do último verbo?


TODAS AS MANHÃS

Despertar é vitória infinda,
a qual o orgulho humano não brinda,
por julgar rotineiro e certo o descerrar das pálpebras.
Por conceber ato consumado a sorte da hora:
a verve rara de Deus rimando vida e aurora.