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sexta-feira, 28 de março de 2014


CARÍCIA OU DESAMPARO*
de
Carmen Moreno


Pedra ou ponte, a palavra costura ou aparta-me do próximo.
No papel, deitada sobre a página, deflagra-me o universo.
O meu e o do outro.
No livro, a palavra não é ímpeto como no improviso da fala.
No livro, revisada, escolhida, oferece-me apenas o perigo da beleza.
Que já é bárbaro!
O perigo de me impelir à ousada viagem de ver.
Ver-me, ver aquele que me escreve,
Ver aqueles que são criados por quem me escreve.
O perigo de ver os mundos fervilhados nas folhas...
e não ser mais a mesma.
No livro, a palavra só ameaça 
porque me convida a sair do lugar –- a mover-me.
A palavra, estirada na página, só pode me oferecer o risco do voo.
E o risco de toda viagem, por mar, terra ou verbo, é sempre o voo.
Portanto, a palavra burilada do poeta,
a verve, vertida em sílabas, do escritor,
é sempre bem-vinda, mesmo quando ameaça.
Sobretudo quando ameaça!
É brinquedo, mesmo quando bélica.
Plástica, mesmo quando revela a feiura do mundo.
Salvadora, mesmo quando mata.
A palavra, pregada nas páginas dos livros,
em aparente imobilidade, está viva.
Contudo, proferida, às vezes agrupa-se tão ágil,
que não há tempo de retocar-lhe o rosto.
E a verdade brota, abrupta.
E a mentira enfeita-se, convicta.
Quando proferida, sua ameaça tem natureza diversa
da que deleitamos no leito da página.
Falada, a palavra encorpa-se, cálida ou bélica.
E é carícia ou desamparo.
No entanto, uma vez expelida,
segue seu curso reto, irrevogável.
E atira sem revólver, talha sem sangue...
Mata sem vestígios.
Mas também tem o poder de socorrer,
com sua saliva salvadora,
qualquer um de nós que, na dor,
encontre alguém com o dom de usá-la como abraço.
Qualquer um de nós que saiba valer-se de sua sonoridade
para adoçar a língua e salvar alguém. Para salvar-se.
A palavra, quando fala, expulsa da boca um corpo invisível.
Quando fala a palavra é carne, é gesto.
Mas quando cala também é forma viva.
Disfarçada de silêncio, no fundo do pensamento,
às vezes grita seu medo de exprimir-se, parir-se.
Grita seus segredos, seu lixo orgânico e suas benfeitorias.
Viva, no caos do pensamento, a palavra inventa o futuro,
retoca o passado, e ensaia o presente –- para vivê-lo.
Mas, neste trajeto do falar ao ouvir, pode gerar breu ou brilho,
conforme o berço preparado para acolhê-la.
Quem ouve é sempre co-autor do que é dito.
A tradução de quem ouve, seu universo de significados e imagens,
sempre ajuda a escrever paz ou guerra.
No entanto, há de chegar o dia em que,
libertos de escrúpulos e medos,
domados pelo afeto, usaremos bem mais a palavra como beijo.

* Livro Loja de Amores Usados de Carmen Moreno