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domingo, 14 de setembro de 2014

POEMA SOBRE FOTO DE CARMEN MORENO

POEMA DE COSTAS


Quem me vê de costas sabe mais que o espelho

(de ângulos parcos).

Quem me vê de costas o molejo, o dorso,

a lordose desafinando as vértebras,

os cachos castanhos dos cabelos

esfregando  vento nos ombros,

o ritmo dos passos, os calcanhares, o avesso.

Quem me vê de costas:

o vizinho, o inimigo, o amor,

o andante anônimo das ruas me conhecem

mais que meus olhos.

Meus olhos não sabem dos sinais das omoplatas,

de certos pelos íntimos,

da pinta da nuca, da cicatriz do cotovelo.

Quem me vê de costas, o fotógrafo.

A imagem que não reconheço sou eu no porta-retratos.

Quem me vê de costas tem revelações a fazer.

Mas minha alma, devoradora de limites,

minha alma, essa deusa de muitos olhos,

minha alma, sim, sabe de mim.

Carmen Moreno




sábado, 13 de setembro de 2014

Poema AMPARO - Carmen Moreno

*AMPARO

Rio, que Cristo alarga teus braços em turismo sem pão?

Tour por teus atalhos, asfaltos,

políticos – mãos ao alto, ladrão.

Que Cristo colore teus traços, benze teus dias,

cruza teus dedos em oração?

Rio, que Cristo sobe teus morros, colhe teu lixo,

samba teus pés de barracos, ampara teus barrancos,

sutura teus abismos...

Que Cristo fotografado afaga teu sorriso fraturado?

Rio, que Cristo afamado te estende a mão

– do cartão postal dourado?


*Carmen Moreno (Engenho Urbano – Rio 41 poetas), Org. Márcio Catunda, Oficina Editores.